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sábado, 29 de junho de 2013

Se você pudesse ter qualquer coisa...


Chave

     Três homens acampavam à beira de um riacho. Um deles era um valente veterano de guerra, conhecido por suas ações decisivas em mais de uma batalha. Outro era um magnata, dono de inúmeros bares e casas de prazer, influente e divertido. O terceiro era um simples chaveiro, solteiro, sem filhos, e com a maior parte da vida passada em silenciosa contemplação.
     O veterano acordou com sede, e foi ao riacho beber um pouco de água. A água movia-se calmamente, de forma quase hipnótica. Ao tocá-la, porém, seu fluxo constante e calmo foi interrompido pelo salto de uma enorme rã para fora dele. Graças às cicatrizes de sua alma, o veterano não se assustou, nem mesmo quando o sapo, com uma voz calma e monotônica, perguntou:
     -Se você pudesse ter qualquer coisa, o que teria?
     O veterano ponderou, apenas um pouco. Sabia que a pergunta era séria, e queria respondê-la muito seriamente, mas conhecia os perigos de ponderar demais. Enfim concluiu, absolutamente decidido:
    -Quereria o controle sobre o destino. Poder escolher o futuro de tudo e todos, especialmente o meu. Assim, todas as batalhas da vida seriam vencidas, e todos os caminhos seriam seguros.
   -Pois assim seja.
   O magnata acordou com sede. Sede e fome. Um pouco de vontade de sexo, mas isso sempre. A sede, pelo menos, podia matar. Foi ao lago, e também foi recebido pela rã. Levou um leve susto, mas estava acostumado a bizarrias muito maiores do que uma rã falante, em suas casas de fetiches.
   -Se você pudesse ter qualquer coisa, o que teria?
   O magnata não precisou pensar. Ninguém entendia melhor do que ele de desejos, e essa pergunta ele já havia se feito, e respondido, inúmeras vezes. Disse prontamente, saboreando um sonho:
   -Teria tudo o que quero. O poder de escolher quais são as minhas vontades, desde as mais fúteis às mais profundas, e tê-las satisfeitas sempre.
   -Pois assim seja
   O chaveiro acordou com sede. Cruzou as pernas, fechou os olhos, ponderou um pouco, e foi ao riacho saciá-la. Quando o sapo saltou, o homem levou um grande susto, mas rapidamente amenizado. Conhecia a importância aguda e a inutilidade crônica do medo. O mesmo lhe ocorreu quando o sapo falou:
   -Se você pudesse ter qualquer coisa, o que teria?
   O chaveiro sentou-se, cruzou as pernas, e meditou profundamente por um longo tempo. Sabia, em sua humildade, que podia fazer uma chave para qualquer fechadura, exceto para uma fechadura que não conhece. Enfim, percebeu que se era um chaveiro, só o que precisava era conhecer suas fechaduras.
   -Teria a melhor resposta para sua pergunta.
   -Pois assim seja

   O veterano mudou-se para uma terra distante, e começou a manipular seu futuro. Ganhou altíssimas patentes em tempos muito curtos, tornou-se famoso e renomado, rico e influente. Observava guerras distantes com seus poderes e decidia seus destinos. Fazia suas escolhas com justiça e respeito. Quando chegou-lhe a velhice, passou a adiar sua morte indefinidamente. A medida que os séculos passavam, o veterano começou a perder a certeza, antes absoluta, sobre o que devia escolher. Gradualmente se sentia mais confuso e perturbado com as consequências de suas escolhas, e cansava-se de ser Deus. Seus poderes pareciam cada vez menos uma bênção e cada vez mais um fardo. Percebia-se parcial demais em sua humanidade para controlar o destino. Queria fazer justiça, mas seus poderes em si eram injustos, e sempre seriam, enquanto ele vivesse. Um dia, ao levantar de sua cama, o veterano viu que escorregaria nos degraus e quebraria o pescoço. Decidiu que ali acabava sua jornada, e foi o único ser da história a cometer suicídio acidental. Logo antes de dar o passo que sabia que o mataria, concluiu que podia controlar todos os acontecimentos, mas não podia controlar o fato de que ele controlava os acontecimentos. Quando cansou-se desse poder, não teve como livrar-se dele, e quando tornou-se insuportável, teve de morrer. E assim era. "A batalha que não posso vencer é a batalha contra mim mesmo". E deixou o mundo, deliberadamente, tendo conhecido tudo menos o autocontrole.

   O magnata voltou a sua mansão mais do que satisfeito, literalmente. Enfim poderia saciar sua infinita sede de poder, ou simplesmente não mais tê-la. Ponderou sobre qual dos dois caminhos seguir: decidiu brincar de poder um pouco. Tornou-se rei, mais tarde imperador, e seu império alastrou-se pelos quatro cantos do mundo. Também não morreu, pois podia ter o que quisesse. Quando um senso de imoralidade lhe tomava conta, ele o espantava, afinal não queria se sentir mal, nunca. Era infalível: qualquer coisa, por mais humana e enraizada que fosse, ele a espantava. Um dia, acordou em seu palácio e percebeu que tinha vontade de experimentar outras vidas. Imediatamente desejou dissolver seu império, e tornar-se um aldeão. Por séculos passeou por diversos ofícios, sempre entretendo-se. Foi ermitão, serviçal, nobre, burguês, prostituta, pedinte, soldado, e viajou o mundo todo. Era o homem mais feliz do mundo, de longe. Dezenas de milênios se passaram. Aos poucos, porém, surgia em seu âmago algo que apenas uma vida tão intensa pode gerar. Seus desejos passaram a ser menos intensos, menos curiosos. Já tivera tédio, e simplesmente o afastara, mas aquilo era diferente. Não estava cansado, estava desejoso da única coisa que nunca tentara: morrer. Sabia, intuitivamente, que morrer era ruim, e tentou afastar o desejo, mas não conseguiu. "Porque não consigo?" Rapidamente percebeu: não conseguia porque não queria. Adquirira o desejo de não mais desejar, o desejo de acabar, e não podia afastá-lo porque não queria afastá-lo. Ele podia mudar seus quereres, mas apenas quando quisesse mudá-los, e agora não queria. Não estava triste, nem se sentia impotente, apenas queria. Achou, inclusive, muito justo morrer. Assim, transmutou-se em um doente terminal. Já sentira todas as dores possíveis, por capricho e curiosidade, e achou digno morrer com dor. Em seu último suspiro, concluiu que embora pudesse escolher sua própria vontade, elas seriam sempre as vontades que ele tinha vontade de ter, logo sempre haveria uma vontade acima, e ele nunca controlaria totalmente aquilo que quer. "Com ou sem meus poderes, todo homem está infalivelmente preso ao que quer". E deixou o mundo, deliberadamente, tendo conhecido tudo menos a frustração.

   Sob a sombra de uma figueira, o chaveiro meditava profundamente. Conhecia agora a resposta perfeita, a fechadura para a qual construiria a chave de sua vida. Não tinha nenhum poder, senão o de saber exatamente o melhor que podia fazer. Depois de alguns dias, voltou à sua oficina, e passou a fazer chaves mais complexas do que nunca. Seu trabalho tornou-se mais árduo, muito mais falho, e talvez até mais limitado, mas ele sabia exatamente o que fazer. Sentia-se sempre motivado, pois estava em íntimo contato com seus quereres mais profundos, com suas fechaduras mais complexas. Sabia que nunca abriria todas. Poderia ter desejado uma chave esqueleto, mas essa chave nunca abriria a si mesma. Poderia ter desejado fechaduras moldáveis, mas assim nunca abriria a fechadura que é a rigidez em si. Não tinha atalhos, não tinha formas óbvias de abrir suas portas, mas sabia como abrir a todas, e sabia que podia abrir a todas, afinal, era um chaveiro. Casou-se com uma camponesa doce e tolerante, e teve filhos sorridentes e calmos. Quando sentiu a velhice chegou, já havia aberto a porta da vida, e sabia que a seguinte era a porta da morte. Chamou seus filhos, e com paciência e confiança, ensinou-lhes seu ofício, dando-lhes a dádiva de saber sempre o melhor desejo a se ter. Depois, com doçura, fez sua última chave, e abriu sua última porta. "Se eu pudesse ter qualquer coisa, não estaria tão completo quanto se eu pudesse conquistar qualquer coisa." E deixou o mundo, deliberadamente, tendo conhecido tudo.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Visões de omniverso


Nautilus


Um homem lógico encontrou um monge louco sentado numa ponte, de olhos fechados e pés cruzados, calçando sandálias.
-O que você está fazendo, monge?
-Imaginando
-O que?
-Um universo
-Ora, tem um aqui fora!
-E um aqui dentro. Eu só escolhi.
-Mas você tem uma vida para viver
-Estou vivendo
-Não, está desperdiçando a vida no seu mundo
-Acho mais desperdício viver no mundo de outro do que no seu próprio.
-Você não pode criar algo tão grande e complexo quanto este Universo
-Não, mas, diferente de você, posso criar algo.
-Posso criar coisas neste mundo.
-Não. Pode mudar.
-Você também não pode imaginar nada que não tenha base neste mundo. Sua imaginação é uma versão reduzida da realidade
-A realidade também é a versão reduzida da realidade de alguém
-Como é?
-Deus sonha conosco.
-Mas Deus não tem outro Universo
-Quem disse?
-Como poderia?
-Não sei, sou uma versão reduzida da realidade desse outro universo
-Então está dizendo que uma entidade de um mundo superior sonha conosco, e sonhamos com entidades inferiores, continuando uma espécie de ciclo?
-Perfeito.
-Isso é ridículo
-Por isso, mais plausível
-Por acaso sua imaginação imagina?
-Não sei, a imaginação é individual. Deus não vê o que imagino.
-Mas você é influenciado por este mundo
-Claro, sou parte dele. E daí?
-E daí que sua imaginação não é original.
-Comparada a este mundo. Porque preciso comparar minha imaginação com a de Deus?
-...
-...
-E você é feliz?
-Quando quero
-E por que não quereria ser feliz?
-Por que eu quereria?
-É uma premissa humana
-Não onde eu vivo
-Escute, você não pode simplesmente ignorar este mundo
-Não estou falando com você? Não estou te imaginando.
-Mas...
-...
-E você prega esse discurso?
-A imaginação é individual
-Mas não acha certo imaginar?
-Acho individual
-Você está me irritando
-Então mate-me
-Não posso
-Por que?
-É proibido
-Quem fez essa regra?
-Deus fez
-Exato. Porque...
-Já sei onde quer chegar. Não adianta te matar na minha imaginação, isso não resolve o problema
-Não neste mundo. Resolve no seu
-Mas de que adianta?
-Se morar no seu mundo, de tudo.
-Porque não se deixa morrer então, porque ainda come ou dorme neste mundo, pouco que seja?
-Para não morrer.
-Mas você morreria neste mundo
-No meu também. Assim como você precisa imaginar de vez em quando, para se completar, eu preciso realizar, de vez em quando, para me completar.
-Imaginar, então, é o propósito da sua vida?
-Não, é a forma como vivo. Ser real não é o propósito da sua.
-Qual o sentido da sua vida?
-Nenhum e todos
-Como?
-Nenhum, porque sou Deus, e como realizo o que quero, não há propósito. Todos, porque tudo o que realizo é porque quis.
-Isso não faz sentido.
-Não para um mortal

O homem racional sentara-se ao lado do monge louco e ficou a assistir à eclosão de várias aranhinhas de ovos, numa das toras da ponte.
-E quando morremos? A imaginação desaparece
-A realidade também
-Mas o que fizemos nela fica
-Assim como em meu mundo
-Seu mundo morre com você
-O que já foi criado não é descriado, apenas muda
-Mas ninguém pode aproveitar seu mundo
-Exceto eu
-Isso não é egoísta? Construir um mundo que ninguém mais pode aproveitar?
-Não. Deus faz isso, e ninguém além dele aproveita a realidade
-Porque não?
-Porque não lhes pertence. “Aproveitar” é imaginar, ser Deus.
-Não é não
-Para mim é.
-Pare de simplesmente justificar tudo dizendo que é certo no seu mundo!
-Depois de você
-...

Desistindo silenciosamente do louco, o homem racional seguiu rumo através da ponte. Por mais que tentasse se concentrar no caminho que trilhava, não conseguia tirar a teoria do monge louco da cabeça. Era racional, racional demais para simplesmente aceitar se opor àquilo. Deitou-se para dormir ao relento, e não conseguiu. A ideia da imaginação como concepção do Universo o perturbava profundamente. Decidiu voltar à ponte. Foi uma longa e tortuosa trilha, durante a madrugada, o que o deu mais tempo para pensar. Queria simplesmente provar que ninguém o imaginava. Isso o velho monge não havia demonstrado! Como podia ter tanta certeza de que Deus o concebera com a imaginação?
Chegando à ponte pelo amanhecer, não viu mais o monge. Tinha muito no que pensar. Sentou-se na ponte e começou a meditar. Era pacífico estar ali, pendurado no abismo, sustentado pela estrutura de madeira, mas sentindo-se ser puxado para aquele vazio escuro abaixo. Foi ai que o viu.
O homem racional viu outro homem, um homem diferente, que não era exatamente racional nem exatamente louco, mas uma combinação das duas, de uma forma estranhamente complexa. Entendeu que esse homem era Deus.
Deus estava escrevendo. Escrevendo uma história. Parou para ler e se surpreendeu profundamente ao perceber que era a sua. Por um momento não compreendeu exatamente o significado disso, mas logo percebeu que não havia mais o que discutir com o fado. Ele havia sido imaginado pelo monge louco, sentado na ponte de seu mundo, e toda a sua vida estava determinada pela vontade do monge louco. Ou quase toda, ainda podia imaginar.
O monge louco continuava sentado na ponte.